{"id":16,"date":"2017-12-29T17:22:37","date_gmt":"2017-12-29T19:22:37","guid":{"rendered":"http:\/\/2018.ruideoliveira.com.br\/?p=16"},"modified":"2017-12-30T18:06:48","modified_gmt":"2017-12-30T20:06:48","slug":"como-vejo-a-arte-de-ilustrar-e-as-intencoes-de-meu-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ruideoliveira.com.br\/br\/texts\/como-vejo-a-arte-de-ilustrar-e-as-intencoes-de-meu-trabalho\/","title":{"rendered":"Como vejo a arte de ilustrar e as inten\u00e7\u00f5es de meu trabalho"},"content":{"rendered":"<p>Gosto de ilustrar livros com conte\u00fados e propostas liter\u00e1rias bem diferentes uma da outra. Acredito que este seja o aspecto mais fascinante do ato de ilustrar, e sem d\u00favida o maior desafio para o ilustrador. Em meu trabalho, sempre almejo que a interpreta\u00e7\u00e3o que tenho do texto n\u00e3o seja a \u00fanica. Procuro, sempre que poss\u00edvel, criar portas \u2013 verdadeiras passagens secretas para que as pessoas tenham as suas pr\u00f3prias e particulares vis\u00f5es. Preocupa-me, portanto, n\u00e3o condicionar em demasia o leitor. Penso que o ato de cria\u00e7\u00e3o de imagens se origina n\u00e3o diretamente na palavra, mas no entre-palavras. Da\u00ed vem minha preocupa\u00e7\u00e3o em criar para cada texto uma imagem adequada, que muitas vezes est\u00e1 de acordo, ou n\u00e3o, com meus gostos pessoais, ou com a minha vis\u00e3o de arte. Por isto, n\u00e3o tenho nenhuma inten\u00e7\u00e3o em ser reconhecido de um livro para outro. Eu substituiria em meu trabalho a palavra estilo por m\u00e9todo de abordagem. O texto \u00e9 a origem de tudo. \u00c9 imposs\u00edvel ilustrar sem gostar de literatura. \u00c9 imposs\u00edvel ilustrar sem gostar de ler.<\/p>\n<p>Assim como o trabalho de um ator que interpreta v\u00e1rios pap\u00e9is \u2013 e para tanto \u00e9 necess\u00e1rio conceituar um laborat\u00f3rio para modelar dramaticamente seu personagem &#8211; vejo o ato de ilustrar como um processo de cria\u00e7\u00e3o muito semelhante.<\/p>\n<p>Aprofundando mais este conceito, que sedimenta e direciona o modo como vejo a ilustra\u00e7\u00e3o, eu diria que \u2013 adotando conceitualmente no mecanismo da rela\u00e7\u00e3o texto e imagem a \u00f3tica teatral, o m\u00e9todo do te\u00f3rico russo Konstantin Stanislavski, por exemplo \u2013 tal pr\u00e1tica n\u00e3o seria conveniente para o ilustrador. Isto se deve ao princ\u00edpio de incorpora\u00e7\u00e3o incondicional e realista, proposto pelo te\u00f3rico, do ator ao papel. Refletindo agora como ilustrador, esta incorpora\u00e7\u00e3o, acima citada, sem d\u00favida poderia ocasionar uma fidelidade ao texto, quase uma imagem espelhar, mas isto seria irreal com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 arte de ilustrar. Defendo, portanto, como necess\u00e1rio ao ilustrador um certo distanciamento cr\u00edtico perante o texto.<\/p>\n<p>Vejo o estilo como um mecanicismo unilateral, uma pr\u00e9-ado\u00e7\u00e3o irrestrita do texto. Neste caso, o ilustrador j\u00e1 chega com o seu laborat\u00f3rio pessoal pronto a ser usado, independente de qual seja o g\u00eanero ou inten\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que ele esteja interpretando. Na verdade, ele aprendeu ao longo dos tempos a desenhar o seu pr\u00f3prio desenho. Em outras palavras: ele n\u00e3o apreende o texto para depois aprender o desenho adequado \u00e0quele texto.<\/p>\n<p>Venho ilustrando, em 30 anos de carreira, um universo diversificado de textos, que v\u00e3o desde Christopher Marlowe (Fausto), Victor Hugo (Pecopin), Michael Ende (Momo) a autores nacionais, como \u2013 nomeando apenas alguns \u2013 Ana Maria Machado, Rog\u00e9rio Andrade Barbosa, Luciana Savaget, e um dos maiores escritores brasileiros de literatura para crian\u00e7as, que foi Walmir Ayala. Diante destes autores, como poderia ter um conceito e imagem unificados no ato de ilustrar escritores t\u00e3o diferentes, t\u00e3o contradit\u00f3rios entre si?<\/p>\n<p>Acho este distanciamento fundamental. Eu diria que, ao ilustrar um livro, eu estou na ilustra\u00e7\u00e3o, mas eu n\u00e3o sou a ilustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante de um texto, o ilustrador n\u00e3o \u00e9 o antes \u2013 a forma adv\u00e9m da literatura, um segredo a ser decifrado por imagens. Vejo a ilustra\u00e7\u00e3o como um g\u00eanero de literatura, senten\u00e7as constru\u00eddas atrav\u00e9s de um alfabeto de signos e s\u00edmbolos. Com este crit\u00e9rio, o ilustrador desenvolve e interpreta o que \u00e9 ilustr\u00e1vel. E o que \u00e9 ilustr\u00e1vel nem sempre \u00e9 o literariamente relevante para o escritor. Complementando este comportamento que orienta o meu trabalho, e, retornando \u00e0 an\u00e1lise do teatro pela natural aproxima\u00e7\u00e3o com a literatura, procurei ao longo dos anos estudar esta rela\u00e7\u00e3o, ou seja, o teatro e a ilustra\u00e7\u00e3o, apesar de meu interesse pelo cinema, devido ao fato de praticar h\u00e1 muitos anos o cinema de anima\u00e7\u00e3o em paralelo ao meu trabalho de ilustrador. As conven\u00e7\u00f5es e sintaxes do teatro e a rela\u00e7\u00e3o do ator com o texto levaram a me aproximar mais do teatro do que do cinema, com o intuito de entender o of\u00edcio de ilustrar. Logicamente que no cinema de anima\u00e7\u00e3o a refer\u00eancia b\u00e1sica de meu trabalho \u00e9, como n\u00e3o podia deixar de ser, o cinema de seq\u00fc\u00eancia viva.<\/p>\n<p>Passei ent\u00e3o a estudar o teatro oriental, principalmente o japon\u00eas. Estou me referindo ao teatro Kabuki e ao teatro No, que tanto influenciaram o cineasta russo Sergei Eisenstein e o grande teatr\u00f3logo alem\u00e3o Bertold Bretch. Ao ver e ler a obra destes dois autores, consegui, assim espero, fazer uma ila\u00e7\u00e3o com o ato de ilustrar que sempre me preocupava. Seguindo a trilha de Stanislavski, entendo que o ilustrador n\u00e3o deva ser tomado, possu\u00eddo por assim dizer, pelo texto, quase como um processo de imers\u00e3o e catarse. N\u00e3o assimilo o significado de distanciamento como frieza e alheamento, assim como n\u00e3o vejo a ilustra\u00e7\u00e3o como tempestade de paix\u00f5es \u00e0 maneira do Romantismo, e, muito menos, uma linguagem autista.<\/p>\n<p>Acredito que a elabora\u00e7\u00e3o distanciada e cr\u00edtica do texto tornaria mais real e fiel a literatura, o meu trabalho de ilustrador. Para tanto, seria incoerente o estilo, algo preexistente e previs\u00edvel. Uma imagem pr\u00eat-\u00e0-porter. A veracidade n\u00e3o estaria na const\u00e2ncia das solu\u00e7\u00f5es, e sim na pr\u00f3pria contradi\u00e7\u00e3o das solu\u00e7\u00f5es encontradas para cada texto. Sendo cada escritor um estilo diferenciado, o ideal ser\u00e1 \u2013 e esta tem sido a minha constante procura \u2013 nada existir antes em termos de imagem, e muito menos depois. Em outras palavras, o ideal seria que a solu\u00e7\u00e3o visual ao criarmos um livro n\u00e3o fosse repet\u00edvel.<\/p>\n<p>Curiosamente, este processo de trabalho \u2013 apesar de se relacionar com uma linguagem essencialmente figurativa como \u00e9 a ilustra\u00e7\u00e3o \u2013 poderia no entanto ser definido como o aqui e agora, que \u00e9 uma premissa b\u00e1sica da arte abstrata.<\/p>\n<p>Um bom exemplo a ser citado nesta dire\u00e7\u00e3o, ou seja, da diferen\u00e7a entre abordagem e estilo, \u00e9 o livro Tapete M\u00e1gico, que ilustrei, de nossa grande escritora Ana Maria Machado. Os quatro contos narrados pela autora possuem temas e assuntos diferentes. O que determinou, neste caso, as quatro solu\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas encontradas para o livro n\u00e3o foi o estilo de escrever da autora, e sim o assunto e o tema.<\/p>\n<p>Mas este comportamento que adotei depende do livro, depende at\u00e9 da palavra f\u00edsica do escritor. Por exemplo, em outros livros procurei concentrar a pesquisa formal diretamente no modo e na forma pl\u00e1stica como o escritor escreve. Eu chamaria este processo de l\u00edtero-visual. Cito como refer\u00eancia o livro L\u00edngua de Trapos, de Adriana Lisboa, que recentemente ilustrei. A maneira delicada, redonda e sinuosa como escreve esta jovem e talentosa poeta inspirou-me a procurar solu\u00e7\u00f5es em forma de volutas. Em alguns casos, procuro me afastar do assunto ou do tema do livro, e isto foi o que ocorreu ao ilustrar a citada obra, tanto assim que nas p\u00e1ginas 18 e 19 percebi, ao analisar o texto, que a poeta utilizava 29 vezes a letra O. Tal fato me orientou, ao criar a ilustra\u00e7\u00e3o, a um outro tipo de fidelidade pl\u00e1stica ao texto. Usei formas circulares que seriam, em termos gr\u00e1ficos, um suced\u00e2neo do som obtido pela po\u00e9tica dos O utilizados pela escritora.<\/p>\n<p>Estas rela\u00e7\u00f5es palavra-som e imagem-texto s\u00e3o um exemplo que nos remonta ao livro Songs of Innocence, de William Blake, de assumida influ\u00eancia em meu trabalho. Nas ilustra\u00e7\u00f5es de L\u00edngua de Trapos seria imposs\u00edvel alcan\u00e7ar estas dedu\u00e7\u00f5es e descobertas, extra\u00eddas da rela\u00e7\u00e3o texto e imagem, j\u00e1 de posse de um estilo pr\u00e9vio.<\/p>\n<p>Um outro exemplo desta rela\u00e7\u00e3o em que um estilo previamente solucionado, no meu entendimento, seria imposs\u00edvel interpretar, \u00e9 o caso do livro que ilustrei em 1983, chamado Viva Jacar\u00e9. Sua autora \u00e9 Cora R\u00f3nai, que possui um estilo l\u00edrico no in\u00edcio do livro, mordaz e tr\u00e1gico no fim. Neste trabalho, h\u00e1 dois aspectos que pretendo destacar como abordagem de texto. Primeiro, \u00e9 o fato de o livro mudar de solu\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica (n\u00e3o quero usar a palavra estilo) \u00e0 medida em que as palavras se tornam graves no texto. Ainda neste sentido de abordagem, nas p\u00e1ginas 12 e 13, separei as palavras, at\u00e9 mesmo as silabas, e as ilustrei. A inten\u00e7\u00e3o era interpretar visualmente a beleza sonora do idioma portugu\u00eas no exato momento em que a escritora narra a felicidade do despertar do jacar\u00e9, em seu habitat natural.<\/p>\n<p>Acredito, e isto tem sido o fundamento de meu trabalho, que a fidelidade ao texto n\u00e3o est\u00e1 no culto ou no estilo deificado do ilustrador, e sim na impessoalidade sincera e profissional da procura da verdade de cada palavra, de cada frase, de cada s\u00edlaba, de cada letra do escritor.<\/p>\n<p>O que pretendo, diante de um texto para ilustrar, n\u00e3o \u00e9 ser mais que o escritor, \u00e9 apenas n\u00e3o ser uma extens\u00e3o dele em forma de imagens. Por outro lado tenho consci\u00eancia de que nem tudo que a literatura nos diz possui um corpo f\u00edsico. Ou seja, nem tudo pode ser ilustrado. Existem momentos em que a abstra\u00e7\u00e3o do texto chega em tal estado \u2013 n\u00e3o est\u00e1gio \u2013 que qualquer imagem seria vulgariz\u00e1-lo. Em contrapartida, \u00e9 comum a express\u00e3o textual ficar aqu\u00e9m da transcend\u00eancia de certas imagens \u2013 qualquer palavra seria sup\u00e9rflua para explic\u00e1-la. Em um texto, nem tudo se representa e nem todas as imagens se explicam por palavras.<\/p>\n<p>Rui de Oliveira.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gosto de ilustrar livros com conte\u00fados e propostas liter\u00e1rias bem diferentes uma da outra. Acredito que este seja o aspecto mais fascinante do ato de ilustrar, e sem d\u00favida o maior desafio para o ilustrador. Em meu trabalho, sempre almejo que a interpreta\u00e7\u00e3o que tenho do texto n\u00e3o seja a \u00fanica. 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