{"id":18,"date":"2017-12-29T17:26:25","date_gmt":"2017-12-29T19:26:25","guid":{"rendered":"http:\/\/2018.ruideoliveira.com.br\/?p=18"},"modified":"2017-12-30T18:07:04","modified_gmt":"2017-12-30T20:07:04","slug":"entrevista-feita-para-a-sociedade-dos-ilustradores-do-brasil-sib","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ruideoliveira.com.br\/br\/texts\/entrevista-feita-para-a-sociedade-dos-ilustradores-do-brasil-sib\/","title":{"rendered":"Entrevista feita para a Sociedade dos Ilustradores do Brasil &#8211; SIB"},"content":{"rendered":"<p>Por: Luciano Ramos e Gabriel Gianordoli.<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o: Renato Alarc\u00e3o<\/p>\n<p><strong>Rui, conta pra gente como voc\u00ea come\u00e7ou a desenhar. Foi porque precisava, assim como uma pessoa come porque tem fome?<\/strong><\/p>\n<p>Eu diria que foi uma necessidade. Uma necessidade que sempre tive de me expressar pelo desenho. Eu n\u00e3o sei se seria uma coisa &#8220;vital&#8221;, um exagero talvez, com certeza foi e continua sendo algo fundamental. Sempre gostei de desenhar. Desde crian\u00e7a ficava l\u00e1 no meu canto rabiscando horas a fio. Era uma maneira tamb\u00e9m de estar comigo mesmo. Hoje em dia eu tenho essa consci\u00eancia, mas na \u00e9poca, logicamente, n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Como um auto-conhecimento?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, tamb\u00e9m. O desenho \u00e9 um espelho, melhor dizendo, o desenho \u00e9 uma imagem atrav\u00e9s do espelho \u2013 sem querer parodiar a Alice. Mas eu n\u00e3o tinha essa consci\u00eancia toda. Atualmente os pais, pelo menos os de classe m\u00e9dia, d\u00e3o muita import\u00e2ncia ao ato de desenhar dos filhos. Eles observam e se interessam pelos desenhos que eles fazem. Mas, na minha \u00e9poca e principalmente na minha fam\u00edlia, o desenho passava ao largo das preocupa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, apesar de meus pais serem pessoas muitos sens\u00edveis \u00e0 arte. A quest\u00e3o maior era a luta pela sobreviv\u00eancia. Nasci no Rio de Janeiro, no bairro de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. Minha pequena e modesta fam\u00edlia era de migrantes do Norte. Todos eram do Par\u00e1. Meu pai, m\u00e3e, tios e tias. Todos nost\u00e1lgicos e desenraizados paraenses. Acho que herdei um pouco isso. Sou um pouco desarraigado, apesar de admirar a cultura carioca. Guardei desta \u00e9poca de inf\u00e2ncia muitos desenhos. S\u00e3o hist\u00f3rias, aventuras, castelos e her\u00f3is. Fixa\u00e7\u00f5es que permanecem at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>Foi um interesse que despertou bem cedo ent\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Eu sempre aquarelava em casa, tinha l\u00e1 meu pequeno estojo, ou fazia meus desenhos a l\u00e1pis de cor. Nunca tive bloco de desenho, por isso desenhava sempre no verso de algum papel, ou ent\u00e3o no verso das folhas usadas pela empresa de meu tio, irm\u00e3o de minha m\u00e3e. Ele era funcion\u00e1rio de uma livraria e sempre me presenteava com aqueles pap\u00e9is. Estou contando uma hist\u00f3ria da d\u00e9cada de 50. A grande divers\u00e3o era o r\u00e1dio, com suas imagens sonoras. Realmente n\u00e3o gostaria de ter come\u00e7ado a desenhar vendo televis\u00e3o. Fiz minhas primeiras garatujas ouvindo palavras no r\u00e1dio, e m\u00fasicas na vitrola de meu pai. Como voc\u00eas podem ver, muito distante destes monstruosos mang\u00e1s, que pervertem e destroem os desenhos de tantas crian\u00e7as hoje em dia. Acho sinceramente o mang\u00e1 e anim\u00ea pedofilia visual.<\/p>\n<p><strong>Na sua fam\u00edlia era s\u00f3 voc\u00ea gostava de desenhar?<\/strong><\/p>\n<p>Eu, meus irm\u00e3os Chico (Xavier de Oliveira) e o Denoy (Denoy de Oliveira) todos desenh\u00e1vamos, mas quem o fazia mais sistematicamente era eu. Certa vez meu pai, uma pessoa muito sagaz, vendo que seus filhos gostavam muito de desenhar, trouxe-nos um livro de anatomia (do Harold Foster). Se n\u00e3o me engano, esse livro existe at\u00e9 hoje, na biblioteca da casa do meu irm\u00e3o Denoy, em S\u00e3o Paulo. Quero adiante falar deste meu amado irm\u00e3o mais velho que faleceu em novembro de 1998, para minha eterna e inconsol\u00e1vel tristeza. Lembro que, por volta dos meus quatorze anos ou talvez um pouco mais, meu irm\u00e3o Denoy, que estudava na \u00e9poca arquitetura, trouxe para casa um livro de anatomia da biblioteca da UFRJ. Ele foi um anjo em minha vida. Na vida do Chico tamb\u00e9m. Foi o primeiro a demonstrar interesse pelo que eu fazia, e ver no meu desenho algum valor.<\/p>\n<p><strong>Parece que os livros, o estudo e a pesquisa tamb\u00e9m te acompanham desde muito cedo, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Ah sim, a partir do momento que comecei a estudar anatomia naquele livro, meu desenho mudou totalmente. Tempos depois ele me presenteou com outro livro de anatomia art\u00edstica. Era um livro da professora D&#8217;Aninibale Braga. A dedicat\u00f3ria em bela caligrafia, assinada tamb\u00e9m pelo meu outro irm\u00e3o Chico, \u00e9 um relic\u00e1rio em minha vida. Eles assim escreveram: Mano Rui. Desejosos de que continues o que come\u00e7as, esperamos, assim, um pouco ajudar. Teus manos Denoy e Francisco. 1958.<\/p>\n<p>Acredito que este despertar cedo para o estudo da figura humana, hoje em dia t\u00e3o esquecida, foi muito importante em minha carreira. Tenho um prazer enorme em desenhar figura, quer seja na ilustra\u00e7\u00e3o, anima\u00e7\u00e3o, gravura ou pintura. O desenho \u00e9 o fundamento de tudo. N\u00e3o quero voltar \u00e0s quest\u00f5es de Lebrun e da Academia Real, mas o dom\u00ednio do desenho continua sendo a base para qualquer artista honesto.<\/p>\n<p>Na minha triste e solit\u00e1ria adolesc\u00eancia, meu pai faleceu tragicamente quando eu tinha 14 anos. Naquela \u00e9poca, al\u00e9m de desenhar, minha \u00fanica divers\u00e3o era ler. Na verdade eu tinha pouco interesse no gin\u00e1sio. Lia tudo que caia em minhas m\u00e3os! Livros que vinham dos meus irm\u00e3os e do meu pai, que tinham gostos muito diversificados de leitura. Lembro de ter lido Schoppenhauer, Nietszche, autores anarquistas, Bergson, Alencar, Graciliano, Blasco Ibanez&#8230; A leitura at\u00e9 hoje \u00e9 a minha companheira eterna. Realmente n\u00e3o sei terminar um dia sem ler alguma coisa.<\/p>\n<p><strong>Como foi estudar pintura no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e depois artes gr\u00e1ficas na UFRJ?<\/strong><\/p>\n<p>Passei dois anos no MAM praticando s\u00f3 pintura. Eu queria ser pintor de vanguarda, sabe? Estudar em um ateli\u00ea tamb\u00e9m ajudou a superar a quest\u00e3o do isolamento muito grande em que eu vivia. Fui um jovem muito t\u00edmido. A timidez \u00e9 um mal terr\u00edvel. Quis ser um pintor de vanguarda porque na \u00e9poca acontecia a chamada nova figura\u00e7\u00e3o. J\u00e1 havia passado a fase da pintura Neo-Concreta e do Tachismo. Ainda sobre a import\u00e2ncia da pintura na minha forma\u00e7\u00e3o, gostaria de dizer algo que at\u00e9 hoje nunca falei. Quando eu tinha 16 anos, conheci a pintura de Bernard Buffet. A influ\u00eancia deste artista no meu trabalho foi avassaladora. Tive uma grande identifica\u00e7\u00e3o com seu estilo. Eram figuras melanc\u00f3licas, solit\u00e1rias e angulosas. Uma pintura extremamente linear. Identifiquei-me tamb\u00e9m com a vida dele. Durante a guerra, ele tinha sido \u00f3rf\u00e3o de pai e morava com a m\u00e3e. Era um artista sincero, ficou famoso e muito rico. Na ocasi\u00e3o eu li que ele morava em um castelo. Era um cara bonito e tinha tamb\u00e9m muito sucesso com as mulheres. Era tudo o que eu queria. Pintar minha tristeza adolescente, ficar rico e famoso em Paris e ter muitas mulheres&#8230; Bernard Buffet se suicidou h\u00e1 alguns anos.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea queria ser um pintor de galeria?<\/strong><\/p>\n<p>Eu queria ser um pintor realmente. Um pintor assim cr\u00edtico, de temas sociais, de protesto, ligado a uma causa. Queria ser um pintor marxista! (risos). Eu tinha grande admira\u00e7\u00e3o pela pintura de Guttuso. Um pintor italiano figurativo que expressava o drama social em seus trabalhos. Lembro que comecei a achar o ambiente do MAM uma coisa de classe m\u00e9dia, gente ociosa, pequeno burguesa&#8230; Naquela \u00e9poca eu era muito radical.<\/p>\n<p><strong>Apesar de estar em um meio onde as pessoas tinham outra origem social, outra ideologia, voc\u00ea encontrou bons artistas?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, Claro! L\u00e1 eu estudei com o Ivan Serpa e depois com o Orlando Lazzarini. Foi um momento importante na minha vida. No MAM eu comecei a ver pintura dos grandes artistas contempor\u00e2neos, e tamb\u00e9m a ver jovens pintores como eu trabalhando.<\/p>\n<p><strong>Neste \u00e9poca voc\u00ea era apenas estudante ou j\u00e1 trabalhava?<\/strong><\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca eu j\u00e1 trabalhava, h\u00e1 muito tempo, em empregos que n\u00e3o tinham nada a ver com arte. Fui banc\u00e1rio 4 anos, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Como foi a decis\u00e3o de abandonar aqueles empregos ditos &#8220;convencionais&#8221; e optar por ser artista?<\/strong><\/p>\n<p>Eu estava cansado de ser banc\u00e1rio, queria viver do meu desenho, mas n\u00e3o acreditava na possibilidade de viver de pintura. Se hoje em dia eu j\u00e1 acho uma coisa complicada o mundo dos marchand e das galerias, o chamado gran monde das Artes Pl\u00e1sticas, imagine naquela \u00e9poca&#8230; Como pintor eu achava que meu trabalho n\u00e3o seria vend\u00e1vel. Mas como eu estava direcionado a encontrar um of\u00edcio, comecei a me interessar por artes gr\u00e1ficas. O meu interesse por cartazes, design e ilustra\u00e7\u00e3o veio atrav\u00e9s do cinema de anima\u00e7\u00e3o. A paix\u00e3o pelo desenho animado remonta a minha inf\u00e2ncia. Sempre gostei de cinema e principalmente de cinema de anima\u00e7\u00e3o. O meu sonho era estudar desenho animado no leste da Europa. Sonho que muitos anos mais tarde veio a se concretizar.<\/p>\n<p>Tudo que eu podia eu lia sobre bonecos animados de Pojar, Tyrlov\u00e1, Zeman e principalmente o trabalho de Jiri Trnka. Acredito que Trnka tenha sido um dos artistas que mais me influenciaram. Ele ilustrava livros infantis maravilhosamente e fazia desenhos e bonecos animados.<\/p>\n<p>Trnka foi uma refer\u00eancia, um orientador vocacional \u00e0 dist\u00e2ncia. At\u00e9 hoje tenho uma profunda admira\u00e7\u00e3o pelo seu trabalho. Eu gostava muito de outros cineastas de anima\u00e7\u00e3o em 2D, por exemplo, o tcheco Brdecka e o polon\u00eas Lenica. Quando no in\u00edcio da d\u00e9cada de sessenta assisti pela primeira vez os desenhos &#8220;A galinha mal pintada&#8221; do Brdecka e o &#8220;Labirinto&#8221; do Lenica, eu sa\u00ed do cinema convicto do que eu queria estudar e fazer.<\/p>\n<p><strong>E como foi a transi\u00e7\u00e3o das artes pl\u00e1sticas para as artes gr\u00e1ficas?<\/strong><\/p>\n<p>Sobre as artes gr\u00e1ficas, eu tinha na \u00e9poca, in\u00edcio dos anos sessenta, uma breve intui\u00e7\u00e3o, hoje profunda convic\u00e7\u00e3o, que \u00e9 imposs\u00edvel estudar design gr\u00e1fico sem conhecer t\u00e9cnicas de desenho, bem como as chamadas artes gr\u00e1ficas tradicionais. Estou me referindo ao bico de pena, carv\u00e3o, pastel, xilo, lin\u00f3leo, metal e lito.<\/p>\n<p>Trabalhar com as artes gr\u00e1ficas, para mim, era isso. Nunca trabalhei com publicidade, apesar de hoje em dia os est\u00fadios de design, em sua grande maioria, s\u00e3o ag\u00eancias travestidas. Foi importante descobrir cedo, sem futuros enganos, que a minha voca\u00e7\u00e3o era direcionada para a cria\u00e7\u00e3o de cartazes, capas de livros, ilustra\u00e7\u00f5es etc. Uma express\u00e3o l\u00edtero-visual. Juntar as duas linguagens que me davam grande prazer \u2013 ler e desenhar.<\/p>\n<p>Acho que foi a leitura que me conduziu para a imagem das palavras, entende? A necessidade de visualizar o que eu lia me levou ao cinema de anima\u00e7\u00e3o e \u00e0 ilustra\u00e7\u00e3o. Lembro-me quando li pela primeira vez os livros de Jorge Amado, as belas ilustra\u00e7\u00f5es do Santa Rosa me tocaram muito.<\/p>\n<p><strong>Que outros livros ilustrados por artistas brasileiros chamaram sua aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Um livro que impressionou muito, quando eu era garoto, chegou \u00e0s nossas m\u00e3os pelo meu pai. Sempre meu querido pai, mesmo com seu modesto trabalho, pequeno e inst\u00e1vel sal\u00e1rio, mesmo assim ele nos trazia freq\u00fcentemente livros. O nome deste maravilhoso livro, de capa dura, era &#8220;O Brasil Pela Imagem&#8221;. Eu o considero t\u00e3o importante para o Brasil, como na\u00e7\u00e3o, como foram os &#8220;Os Sert\u00f5es&#8221;, de Euclides da Cunha, &#8220;Casa Grande &amp; Senzala&#8221;, de Gilberto Freyre, ou &#8220;Geografia da Fome&#8221;, de Josu\u00e9 de Castro. Ilustrado por Seth (\u00e1lvaro Marins), &#8220;O Brasil Pela Imagem&#8221; \u00e9 uma obra monumental, toda em bico de pena, sobre a forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro. Infelizmente hoje em dia poucas pessoas conhecem este livro. Certa vez encontrei uma entrevista do Seth onde ele disse que o fez por amor \u00e0 p\u00e1tria e que levou anos e anos para conclu\u00ed-lo. \u00e1lvaro Marins, portanto, foi uma de minhas refer\u00eancias, pelo seu conhecimento de Brasil e tamb\u00e9m por sua grandiosa arte de ilustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este livro foi lan\u00e7ado durante o per\u00edodo de Vargas. A \u00faltima ilustra\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente a inaugura\u00e7\u00e3o da usina de Volta Redonda, hoje privatizada. Ali\u00e1s, sobre Vargas, eu gostaria de dizer o seguinte: Quando vejo a atual pol\u00edtica brasileira e seus buf\u00f5es, chego \u00e0 conclus\u00e3o que nenhum destes presidentes chegam aos p\u00e9s de Get\u00falio Vargas. Melhor dizendo. Nenhum destes presidentes chegam \u00e0 poeira do solado do sapato de Get\u00falio Vargas. \u00c9 isso a\u00ed. Esta \u00e9 a minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Enquanto garoto voc\u00ea leu quadrinhos?<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade durante a minha inf\u00e2ncia li muito pouco quadrinhos. Li bastante a revista &#8220;Edi\u00e7\u00f5es Maravilhosas&#8221;, da EBAL. Meu pai tinha uma profunda avers\u00e3o por quadrinhos. Meu irm\u00e3o Denoy tamb\u00e9m. Quanto ao h\u00e1bito que eu tinha de desenhar capas de gibi, o Denoy sempre me dizia uma coisa muito s\u00e9ria: &#8220;Rui, voc\u00ea n\u00e3o deve estudar o desenho pelos quadrinhos. Porque voc\u00ea pode criar defeitos que v\u00e3o permanecer no seu tra\u00e7o ao longo da sua vida, e vai ser dif\u00edcil super\u00e1-los. Voc\u00ea tem que estudar os cl\u00e1ssicos!&#8221; Veja que Denoy, que era o mais velho, dizia isso para mim quando eu tinha 14 anos de idade. Meu irm\u00e3o era um g\u00eanio! Um jovem de vinte e poucos anos, portanto com pouca experi\u00eancia de vida, mas com uma profunda intui\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia intelectual. &#8220;Voc\u00ea tem que estudar os cl\u00e1ssicos! Voc\u00ea tem que estudar Rafael! Voc\u00ea tem que estudar Michelangelo! Voc\u00ea tem que estudar esses grandes mestres do desenho, porque eles far\u00e3o com que voc\u00ea aprenda a desenhar sem estes cacoetes do desenho de quadrinhos&#8221;.<\/p>\n<p>Mas eu, como todo garoto da minha \u00e9poca, gostava muito de copiar quadrinhos! Copiava, por exemplo, os desenhos do Andre Le Blanc, Alex Raymond e do Jayme Cortez. Tanto o Le Blanc quanto o Cortez eu vim a conhec\u00ea-los pessoalmente muitos anos mais tarde e se tornaram meus amigos, al\u00e9m de serem duas refer\u00eancias pra mim.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma hist\u00f3ria do Alberto Breccia que vale a pena comentar agora&#8230; Ele fazia quadrinhos mas n\u00e3o deixava que seus filhos lessem hist\u00f3ria em quadrinhos!<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 mesmo?<\/p>\n<p>**Sim, ele queria que eles lessem apenas literatura. Ele fazia quadrinhos porque era uma quest\u00e3o de ilustrar as id\u00e9ias que lia, mas n\u00e3o deixava que este tipo de &#8220;literatura&#8221; entrasse em sua casa. Ent\u00e3o, um dos filhos dele, o Enrique Breccia, lia quadrinhos escondido. O pai trabalhando com quadrinhos e ele lendo escondido! **<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m fazia isso, pegava emprestado as revistas em quadrinhos para desenhar as capas. Inclusive tenho guardados at\u00e9 hoje esses desenhos. Mas como j\u00e1 disse, meu pai e meu irm\u00e3o n\u00e3o gostavam dos quadrinhos e me alertavam muito sobre isso. Meu pai dizia que os quadrinhos poderiam bloquear o gosto pela leitura de livros. Talvez o Denoy se preocupasse mais com o desenho. Hoje eu penso isso. O interessante \u00e9 que muito mais tarde o Denoy se tornou um importante cineasta, assim como meu outro irm\u00e3o (Xavier) tamb\u00e9m, e na d\u00e9cada de 80 ele fez um longa utilizando a linguagem dos quadrinhos. &#8220;O amigo do Super Homem&#8221;, \u00e9 o nome do filme, uma pel\u00edcula muito interessante.<\/p>\n<p><strong>Como foi estudar seis anos de ilustra\u00e7\u00e3o na Hungria?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, eu era um jovem de esquerda e acreditava piamente na revolu\u00e7\u00e3o socialista. Acreditava que o mundo marchava para o socialismo&#8230; Eu via nos mapas os pa\u00edses que eram socialistas na \u00e9poca e cheguei \u00e0 conclus\u00e3o que este avan\u00e7o era irrevers\u00edvel, que a vit\u00f3ria do proletariado finalmente aconteceria etc. Por isso, e por outros motivos tamb\u00e9m, passei a me interessar muito pela arte do Leste Europeu. At\u00e9 porque, eu via na arte do leste da Europa um tipo de grafismo que ainda n\u00e3o estava contaminado pelo v\u00edrus capitalista. Vejam bem, estou usando palavras da \u00e9poca! Eu abominava o visual da publicidade, que, para mim, dignificava o capital atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o, da necessidade de consumo. O meu interesse pelo leste da Europa veio atrav\u00e9s da pol\u00edtica e por acreditar nessa arte gr\u00e1fica imune ao capitalismo. Pelo menos eu achava isso&#8230; Ent\u00e3o, estabeleci correspond\u00eancias com est\u00fadios na Pol\u00f4nia, Tchecoslov\u00e1quia, Hungria, Bulg\u00e1ria e R\u00fassia. E quando eu recebia os folhetos e cat\u00e1logos, aquilo pra mim era uma revela\u00e7\u00e3o, entende?<\/p>\n<p>**E como foi estudar no leste europeu? **<\/p>\n<p>Como disse, meu interesse veio essencialmente da f\u00e9 que eu tinha no socialismo e na necessidade de estudar aquilo que eu considerava a verdadeira artes gr\u00e1ficas. Ou seja, aquela voltada para a tradi\u00e7\u00e3o, para a gravura e para a auto express\u00e3o. Na Hungria, estudei design em uma escola onde eu entrava de manh\u00e3 e sa\u00eda \u00e0 noite. Nessa \u00e9poca, comecei a entrar nessas loucuras de trabalhar de madrugada. Sabe, o cara que descobre a madrugada pela bo\u00eamia? Comigo foi diferente. Eu a descobri na juventude pelo trabalho e pelo desenho. Tremendo de um babaca, mas tudo bem&#8230; (risos) Mas enfim, o Instituto Superior H\u00fangaro de Artes Industriais, que ficava em Buda, foi muito importante para minha forma\u00e7\u00e3o cultural, art\u00edstica e t\u00e9cnica. Humana tamb\u00e9m. Durante seis anos foi assim que vivi, o dia todo estudando&#8230;<\/p>\n<p><strong>A vida na Hungria contribuiu para que voc\u00ea acentuasse suas convic\u00e7\u00f5es ou, pelo contr\u00e1rio, diluiu um pouco a sua vis\u00e3o de socialista?<\/strong><\/p>\n<p>Foi essencial vivenciar outra realidade e sair um pouco do casulo brasileiro. Do ponto de vista pol\u00edtico, comecei a ver que o socialismo era muito dif\u00edcil. Tive at\u00e9 muitas decep\u00e7\u00f5es no leste da Europa com rela\u00e7\u00e3o a isso. Descobri o \u00f3bvio, que o homem \u00e9 muito mais complexo do que qualquer ideologia ou filosofia. Chegar a esta conclus\u00e3o foi um pouco desalentador para mim, mas, ainda assim, vi nessa \u00e9poca uma sociedade muito diferente da nossa, por\u00e9m bastante alienada. Mas, do ponto de vista do ensino e da sa\u00fade p\u00fablica, muito melhor estruturada.<\/p>\n<p><strong>Vamos falar um pouco de cinema de anima\u00e7\u00e3o, que foi uma de suas principais refer\u00eancias&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Sim, eu sempre gostei demais de cinema. At\u00e9 hoje sou vidrado, embora v\u00e1 menos ultimamente. Mas, quando jovem, eu era um cin\u00e9filo que assistia tr\u00eas filmes durante a semana. Eu tinha um fasc\u00ednio desde menino por desenhos em movimento. Lembro que assistia \u00e0queles desenhos animados e sonhava: &#8220;Puxa, eu um dia vou fazer isso! Desenhos animados que nem os da Disney! Eu vou ser o Disney brasileiro!&#8221; (risos).<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea gostava do Disney?<\/strong><\/p>\n<p>Eu me lembro uma vez que li no livro &#8220;A hist\u00f3ria do cinema&#8221;, de George Sadoul, uma frase que dizia: &#8220;Disney \u00e9 o Rafael do mau gosto&#8221;. Foi uma cr\u00edtica severa ao Disney&#8230; Eu concordei, claro, pois como jovem de esquerda, achava o Disney um capitalista. Havia um outro cineasta, que se tornou importante na minha forma\u00e7\u00e3o, que foi o Paul Grimault. Para mim foi um mestre! Fazer anima\u00e7\u00e3o po\u00e9tica como ele fazia era o que me interessava. Na verdade, eu admirava os desenhos animados dos est\u00fadios Disney. Acho que &#8220;Pinochio&#8221;, &#8220;Bambi&#8221; e a &#8220;Dama e o Vagabundo&#8221; s\u00e3o obras primas dentro do universo de Disney. Isto \u00e9 importante ressaltar. Mas o que eu queria mesmo era fazer desenhos animados com as anima\u00e7\u00f5es de Paul Grimault. O estilo de Grimault me influenciou muito. Acredito que at\u00e9 mesmo na ilustra\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea teve acesso ao trabalho dele?<\/strong><\/p>\n<p>Vendo seus filmes na Maison de France. Fazia isso desde os dezesseis anos. Via de tudo. Como disse h\u00e1 pouco, foi o desenho animado que me trouxe para a pintura, que me revelou o cartaz, que me revelou o design. Sim, porque ele \u00e9 um am\u00e1lgama de todas as manifesta\u00e7\u00f5es das artes visuais. O desenho animado \u00e9 para o cinema o que a \u00f3pera \u00e9 para a m\u00fasica, um espet\u00e1culo total onde todas as linguagens art\u00edsticas est\u00e3o envolvidas.<\/p>\n<p><strong>O que mais te atraiu no cinema de anima\u00e7\u00e3o, especificamente?<\/strong><\/p>\n<p>Sempre gostei de movimentar meus desenhos. Ainda no tempo da Escola de Belas Artes, estudando o Renascimento, inevitavelmente cheguei aos Maneirismo. Foi uma revela\u00e7\u00e3o. Acredito que toda a composi\u00e7\u00e3o, a figura\u00e7\u00e3o que utilizo nas minhas ilustra\u00e7\u00f5es, se origina de meus estudos do maneirismo. At\u00e9 hoje tenho um grande interesse por este per\u00edodo da arte. Sob alguns aspectos, acho o maneirismo mais importante para arte do que o Renascimento. \u00c9 uma opini\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p>Quanto ao cinema de anima\u00e7\u00e3o, meus tr\u00eas \u00faltimos desenhos animados \u2013 &#8220;Amor \u00cdndio&#8221;, &#8220;A Lenda do Dia e da Noite&#8221; e o &#8220;Bravo Pastor&#8221; que no momento estou fazendo \u2013 eu os classifico com filmes de um ilustrador. No momento, o que me atrai no cinema de anima\u00e7\u00e3o \u00e9 a possibilidade de juntar a ilustra\u00e7\u00e3o ao movimento.<\/p>\n<p>Por outro lado, penso em fazer filmes futuramente que resgatem o grafismo ancestral do desenho animado. Admiro muito os chamados &#8220;primitivos&#8221; da anima\u00e7\u00e3o, ou seja, os anos 10, 20 e 30. O cinema de anima\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o hoje \u00e9 o de um ilustrador fazendo anima\u00e7\u00e3o. Eu tenho preocupa\u00e7\u00f5es com o cen\u00e1rio, com a quest\u00e3o pl\u00e1stica e gr\u00e1fica. Ao separar estes dois termos \u00e9 com a inten\u00e7\u00e3o de colocar o desenho animado como puro grafismo. Papel, tinta e uma c\u00e2mera fixa. Acho o atual virtuosismo pl\u00e1stico do cinema de anima\u00e7\u00e3o, principalme o 3D, muito perigoso. Melhor dizendo, enganoso. Atualmente alguns filmes de anima\u00e7\u00e3o s\u00e3o verdadeiros kitsch do cinema de seq\u00fc\u00eancia viva. Mas isto \u00e9 uma outra hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p><strong>Atualmente, a maior parte do seu trabalho destina-se \u00e0 ilustra\u00e7\u00e3o para livros. Conte-nos um pouco sobre isso.<\/strong><\/p>\n<p>Ilustrar foi um desdobramento natural do meu trabalho e tamb\u00e9m uma escolha influenciada por minha paix\u00e3o pela literatura. Pra mim ilustra\u00e7\u00e3o \u00e9 um g\u00eanero de literatura. Acho que ilustrar \u00e9 escrever por imagens. Curiosamente, este interesse aconteceu de maneira tardia em minha vida, quando eu era estudante na Europa. De volta ao Brasil, trabalhei como designer na televis\u00e3o por um tempo e s\u00f3 comecei a trabalhar sistematicamente como ilustrador de literatura a partir de 1983. Na televis\u00e3o, eu era sint\u00e9tico, blocado, conc\u00eantrico, depurado, enfim, extremamente designer. O grafismo na TV \u00e9 atemporal, isto \u00e9, n\u00e3o conta hist\u00f3rias. S\u00e3o alegorias gr\u00e1ficas sint\u00e9ticas em um sistema de &#8220;arma e desarma&#8221;. Graficamente, o design em televis\u00e3o \u00e9 como se fosse uma fuga de Bach. Uma figura\u00e7\u00e3o abstrata. Parece um paradoxo. Mas \u00e9 assim que sempre vi meu trabalho na televis\u00e3o \u2013 uma figura\u00e7\u00e3o assentada na abstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O melhor projeto de abertura \u00e9 aquele que tem o espa\u00e7o conceitual mais apurado e mais desenvolvido do que o espa\u00e7o a\u00e9reo, apesar \u2013 pelas pr\u00f3prias caracter\u00edsticas da novela \u2013 de ter feito, nas aberturas e vinhetas do S\u00edtio do Picapau Amarelo, na Globo, desenhos com um grande apelo \u00e0 profundidade espacial, modelando as figuras, utilizando luz, sombra etc. Na TV-Educativa, procurei eliminar todo processo narrativo de meu trabalho. Era forma e contra-forma. Juntando Globo e TV-E, trabalhei oito anos como designer em televis\u00e3o.<\/p>\n<p>A ilustra\u00e7\u00e3o funcionou como uma ant\u00edtese, um contraponto \u00e0 rigidez e ao racionalismo imposto pela m\u00eddia eletr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Como ilustrador, eu podia ser extremamente o oposto, isto \u00e9, podia ser amb\u00edguo, prolixo, barroco, expressionista, impressionista, dependendo do texto. Penso que meu trabalho em ilustra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma jun\u00e7\u00e3o oscilante, alternada entre o cl\u00e1ssico e o rom\u00e2ntico. Entre Apolo e Dionisius. Tenho venera\u00e7\u00e3o pelo cl\u00e1ssico e pelo neoclassicismo, ao mesmo tempo adoro o Romantismo. Na minha vis\u00e3o pessoal, a arte da ilustra\u00e7\u00e3o se sedimenta, se nutre e se renova na contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje meu trabalho \u00e9 fundamentalmente centrado nos livros, como capista e designer.<\/p>\n<p><strong>Quer dizer, voc\u00ea se dedica mais aos livros do que qualquer outra coisa. Mais do que aos filmes de anima\u00e7\u00e3o, por exemplo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Filmes de anima\u00e7\u00e3o precisam de patroc\u00ednio. Todos os filmes que fiz at\u00e9 hoje foram produzidos a partir de pr\u00eamios que recebi em concursos oficiais de roteiros Ou ent\u00e3o estavam ligados a \u00f3rg\u00e3os oficiais do Governo. Eu n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de bancar um filme de anima\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m jamais vou fazer anima\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria por exemplo. N\u00e3o tenho nada contra quem faz. Eu quero fazer desenhos animados como fiz at\u00e9 hoje: \u00e9tnicos, culturais, especulativos e filos\u00f3ficos. Pra mim, cinema de anima\u00e7\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o do curta. N\u00e3o vejo cinema de anima\u00e7\u00e3o como longa metragem. \u00c9 comparar \u00f3pera com opereta. Uma sinfonia com um quarteto de cordas. Sempre esclarecendo que isto \u00e9 uma vis\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p><strong>Rui, fale um pouco sobre o desafio que representa ilustrar literatura.<\/strong><\/p>\n<p>Posso come\u00e7ar falando das limita\u00e7\u00f5es impostas ao ilustrador. Como ilustrador, eu n\u00e3o posso inventar um texto. Ele simplesmente se apresenta para mim. Eu posso at\u00e9 burl\u00e1-lo, escamote\u00e1-lo e at\u00e9 mesmo super\u00e1-lo tecnicamente em termos de express\u00e3o, de criatividade e inven\u00e7\u00e3o, mas eu n\u00e3o posso criar um texto novo \u2013 o texto \u00e9 aquele que me d\u00e3o para ilustrar. Sem querer me eximir de culpas, eu acho que, se \u00e0s vezes tenho problemas na ilustra\u00e7\u00e3o, na verdade eles se originam no trabalho do escritor. Eu fa\u00e7o enquanto ilustrador met\u00e1foras visuais, os escritores fazem met\u00e1foras liter\u00e1rias. O que eu quero dizer \u00e9 que as quest\u00f5es das letras pertencem \u00e0s letras. Por exemplo: h\u00e1 poucos dias uma escritora me fez o seguinte coment\u00e1rio: &#8220;Voc\u00eas ilustradores deveriam desenhar mais os negros!&#8221;. Eu respondi: &#8220;Mas onde est\u00e3o os textos sobre os negros?&#8221;. Apesar de esta situa\u00e7\u00e3o ter mudado muito nos \u00faltimos anos, a verdade \u00e9 que, na literatura infanto-juvenil, quase n\u00e3o existem textos sobre negros no Brasil.<\/p>\n<p>No momento, estou ilustrando um belo livro da editora SM escrito pelo Rog\u00e9rio Andrade Barbosa. O nome do livro \u00e9 &#8220;ABC da \u00e1frica&#8221;. Depois desse, vou ilustrar para Nova Fronteira um livro infanto-juvenil passado na \u00e1frica. Ele foi escrito pelo embaixador Alberto da Costa e Silva, que \u00e9 um especialista em temas africanos. Isso \u00e9 um fato novo. N\u00e3o importa se \u00e9 ou n\u00e3o direcionado por uma exig\u00eancia oficial. A realidade \u00e9 que at\u00e9 ent\u00e3o entre os 110 livros que ilustrei apenas tr\u00eas envolviam o universo dos negros.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 sua rotina de trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>Acredito, sem muito certeza, n\u00e3o ser um alienado. Mas devo confessar que s\u00f3 penso no meu trabalho. Detesto sair \u00e0 rua, e fico agoniado para voltar logo para o meu mundinho, meu est\u00fadio, minhas m\u00fasicas, minha mesa de trabalho, onde me aguarda uma imagem. Se n\u00e3o estou desenhando, tenho a impress\u00e3o que estou perdendo tempo. Minhas leituras, a m\u00fasica que escuto, o cinema que vejo, tudo eu direciono para o meu trabalho. Gosto muito de contemplar, n\u00e3o procurar fun\u00e7\u00e3o ou causa, mas, intimamente, pessoalmente, n\u00e3o tenho um olhar desinteressado. Quando estou com um &#8220;abric\u00f3 de macaco&#8221; em minha m\u00e3o, eu penso em design. N\u00e3o tenho, nesta altura do campeonato, nenhum constrangimento em afirmar que acordo pensando em desenho e vou dormir pensando em desenho.<\/p>\n<p>Aprender a representar o mundo \u00e9 um esfor\u00e7o longo, gradual. \u00c9 um processo de apreens\u00e3o que \u00e9 tamb\u00e9m f\u00edsico, e que deve ser constantemente exercido. Por este motivo, sou adepto ferrenho da disciplina \u2013 acordar cedo, aproveitar ao m\u00e1ximo a luz do dia. S\u00f3 n\u00e3o coloco um rel\u00f3gio de ponto no meu est\u00fadio porque aquele barulho me lembra o tempo que fui banc\u00e1rio, comerci\u00e1rio. Trabalhando sozinho, acho que isto seria um pouco rid\u00edculo, voc\u00eas n\u00e3o acham? Ou n\u00e3o? (risos).<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea se posicionaria como um conservador em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 arte?<\/strong><\/p>\n<p>De forma alguma. Tenho maior respeito pela arte abstrata, pelos movimentos de arte conceitual dos anos sessenta por exemplo. No caso da arte abstrata, a considero um dos momentos m\u00e1ximos da cultura do ocidente. Veja Kandinsky, Mondrian, Malevitch e a longa gesta\u00e7\u00e3o pela qual passaram at\u00e9 chegar \u00e0 abstra\u00e7\u00e3o. Tenho profunda admira\u00e7\u00e3o pelo construtivismo, pelo neoconcretismo e suprematismo russos, tenho profundo respeito pelo De Stijl&#8230; Eu gosto demais deles! Eu gosto e os estudo porque eles eram artistas de verdade. Tenho uma grande admira\u00e7\u00e3o pela obra de Rothko e de Gottlieb. Apesar de ele jamais ter chegado \u00e0 abstra\u00e7\u00e3o, em minha opini\u00e3o, acredito que o estudo do expressionismo abstrato de De Kooning \u00e9 fundamental na forma\u00e7\u00e3o de um ilustrador. Para conceituar a ilustra\u00e7\u00e3o, que \u00e9 inexoravelmente figurativa, em muitos textos que fiz em minha p\u00f3s gradu\u00e7\u00e3o, tanto no mestrado quanto no doutorado, utilizei os princ\u00edpios da arte abstrata (ao contr\u00e1rio).<\/p>\n<p>Vai uma grande diferen\u00e7a entre as experi\u00eancias sensoriais propostas por Picabia \u2013 nas d\u00e9cadas de 10 e 20 do s\u00e9culo passado \u2013 e estes atuais enganadores, picaretas, com suas performances, borr\u00f5es decorativos, instala\u00e7\u00f5es e &#8220;objetos de arte&#8221;. S\u00e3o pintores &#8220;abstratos&#8221; &#8220;desde de criancinhas&#8221;. J\u00e1 nasceram abstratos. Voc\u00ea conhece alguma fase figurativa, longa e consistente, destes pintores &#8220;abstratos&#8221; japoneses l\u00e1 de S. Paulo? S\u00f3 gostaria de lembrar um elemento para reflex\u00e3o: ap\u00f3s tantas experi\u00eancias conceituais, a arte do s\u00e9culo XX passa para o s\u00e9culo XXI com tr\u00eas grandes figurativos \u2013 Lucien Freud, Francis Bacon e Hockney. N\u00e3o \u00e9 interessante isso? Principalmente se considerarmos que, neste in\u00edcio de s\u00e9culo, um dos artistas de maior impacto \u00e9 o australiano Ron Mueck, com suas gigantescas esculturas hiperrealistas de fibra de vidro e resina. Ainda sobre estes artistas realistas que est\u00e3o passando de um s\u00e9culo para outro, queria dizer que gosto muito do trabalho da Paula Rego, uma pintora portuguesa. Na minha opini\u00e3o, ela \u00e9 um novo Balthus, talvez at\u00e9 mais profundo que ele.<\/p>\n<p><strong>Em seu processo de trabalho o fazer influencia a cria\u00e7\u00e3o ou tudo ocorre de forma puramente mental?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito complicado teorizar sobre isso. O pr\u00f3prio Jean Cocteau tem uma frase muito importante, que diz: &#8220;O artista n\u00e3o queima etapas.&#8221; O material \u00e9 inteligente. A forma \u00e9 inteligente. Eu n\u00e3o fa\u00e7o no meu trabalho a distin\u00e7\u00e3o entre forma e conte\u00fado. O material tem voz pr\u00f3pria, quer dizer, a voz pr\u00f3pria que voc\u00ea est\u00e1 querendo dar ao seu trabalho n\u00e3o depende somente de sua &#8220;voz interior&#8221;, mas tamb\u00e9m depende da voz daquilo que est\u00e1 l\u00e1, impregnando o papel. E o papel tem voz! Tem som. \u00c9 preciso deixar, em determinado momento, que ele fale por voc\u00ea. \u00c9 um di\u00e1logo. N\u00e3o \u00e9 uma conversa de via \u00fanica. A compreens\u00e3o e o dom\u00ednio do material s\u00e3o o transporte mais leg\u00edtimo para o transcendental. Se voc\u00ea n\u00e3o domina o material, voc\u00ea n\u00e3o pode ir \u00e0 transcend\u00eancia. Absolutamente n\u00e3o acredito nesta arte sem of\u00edcio.<\/p>\n<p>O culto atual ao n\u00e3o objeto, \u00e0 mitifica\u00e7\u00e3o do virtual e do conceitual, esta arte sobre a qual se fala mas n\u00e3o se v\u00ea, profundamente verbal e liter\u00e1ria, seria mais sincera se assim fosse declarado pelos seus criadores: &#8220;tudo isso \u00e9 para encobrir que n\u00e3o sei desenhar um &#8220;O&#8221; com um copo. Meu dom\u00ednio motor n\u00e3o me possibilita nem pentear meu cabelo, tomar sorvete ou amarrar o meu sapato&#8221;. Grande parte das obras que vejo atualmente nas galerias n\u00e3o \u00e9 um problema da arte, \u00e9 um problema do artista saber ou n\u00e3o abotoar uma camisa.<\/p>\n<p><strong>Conte pra gente sobre etapas do seu trabalho, se existe um passo-a-passo, pesquisa, esbo\u00e7os&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que toda revela\u00e7\u00e3o se origina de um mist\u00e9rio. Em outras palavras, o que estou querendo dizer \u00e9 que voc\u00ea s\u00f3 descobre aquilo que j\u00e1 existe. Qualquer trabalho que fa\u00e7o passa antes por uma fase de refer\u00eancias e pesquisas. Quando come\u00e7o a ler um texto e esbo\u00e7ar as ilustra\u00e7\u00f5es, j\u00e1 penso logo qual o estilo apropriado \u00e0quelas palavras, e onde est\u00e1 este estilo. Melhor dizendo: onde est\u00e1 o modo de fazer. N\u00e3o gosto de usar a palavra estilo. Freq\u00fcentemente, gasto mais tempo nestes antecedentes do que na pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o do livro. Voc\u00eas podem ver que estou com alguns livros aqui em cima&#8230; Eu passo mais tempo assim, olhando um drapeamento, uma bota, um detalhe de arquitetura&#8230; S\u00f3 depois de fazer todo esse invent\u00e1rio \u00e9 que come\u00e7o a desenhar. Se quero desenhar uma \u00e1rvore fant\u00e1stica, eu vou ao Parque Laje ou ao Jardim Bot\u00e2nico. O fant\u00e1stico est\u00e1 no real, n\u00e3o na realidade. Atrav\u00e9s de uma foto eu n\u00e3o conseguiria perceber o quanto elas s\u00e3o fant\u00e1sticas. A foto j\u00e1 \u00e9 uma leitura. Real? Enganosa? Dif\u00edcil saber. O interessante \u00e9 quando podemos nomear aquilo que estamos desenhando. At\u00e9 mesmo a mem\u00f3ria que eu tive daquela \u00e1rvore pode ser enganosa. Creio que, no trabalho de um ilustrador, a memoriza\u00e7\u00e3o existe, por\u00e9m, quanto mais eliminarmos a mem\u00f3ria, melhor ser\u00e1. Dou muito valor ao olhar t\u00e1ctil em meu trabalho. Nos dedos est\u00e3o os nossos melhores olhos.<\/p>\n<p><strong>Ao iniciar um trabalho, quando termina o desenhista e come\u00e7a o ilustrador?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que a ilustra\u00e7\u00e3o come\u00e7a quando voc\u00ea domina a narra\u00e7\u00e3o. Muitas vezes o ilustrador n\u00e3o possui um bom adestramento t\u00e9cnico, mas tem uma grande capacidade narrativa. O inverso tamb\u00e9m acontece, por isso acredito tamb\u00e9m que o excesso de virtuosismo pode mais confundir do que contar uma hist\u00f3ria. Eu acho que o desenho \u00e9 o fundamento, mas a ilustra\u00e7\u00e3o s\u00f3 come\u00e7a quando a narrativa come\u00e7a. Eu posso fazer um belo desenho sem querer dizer nada. Ele \u00e9 apenas um desenho que se auto-justifica. A auto-justificativa na ilustra\u00e7\u00e3o \u00e9 quando voc\u00ea estabelece elos narrativos centrais e paralelos. O cineasta russo Eisenstein dizia que o seu filme se conclu\u00eda com a participa\u00e7\u00e3o e no interior de cada espectador. Portanto, importando esse conceito do Eisenstein, eu acho que quem completa a ilustra\u00e7\u00e3o \u00e9 o leitor.<\/p>\n<p><strong>Ao longo de sua carreira voc\u00ea tem experimentado diversos estilos. Pode nos falar disso?<\/strong><\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma quest\u00e3o muito delicada. Muito pessoal. Tudo o que vou dizer pertence ao meu olhar e ao meu fazer ilustra\u00e7\u00e3o. H\u00e1 muitos anos que n\u00e3o utilizo a palavra &#8220;estilo&#8221; em meu trabalho. O que \u00e9 o estilo? Um instrumento?. Uma ferramenta? Um modo caracter\u00edstico e fixo de ser?<\/p>\n<p>Em lugar de estilo passei a utilizar a palavra abordagem.. Claro que existe sempre em seu trabalho um DNA. Existem fixa\u00e7\u00f5es que permanecem e reaparecem em meus desenhos desde crian\u00e7a. Existem elementos e solu\u00e7\u00f5es que s\u00e3o imut\u00e1veis em nosso trabalho. Por mais que voc\u00ea mude tudo, ela est\u00e1 sempre l\u00e1 lhe espreitando \u00e0 sombra, em algum recanto da ilustra\u00e7\u00e3o. Como disse: \u00e9 o seu DNA.<\/p>\n<p>Nada contra aos ilustradores que come\u00e7am a ilustrar de uma maneira e seguem com ela a vida inteira. Um evolu\u00e7\u00e3o gradual. At\u00e9 mesmo previs\u00edvel. Pessoalmente acho o estilo, como \u00e9 comumente entendido, um fen\u00f4meno de auto-c\u00f3pia. Mas isto n\u00e3o \u00e9 uma verdade absoluta \u2013 \u00e9 apenas a minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Como virtude ou defeito, tenho uma preocupa\u00e7\u00e3o de mudar sempre. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por causa da literatura. Vez por outra eu digo: \u2013 para cada palavra uma imagem! Mas isso \u00e9 uma coisa muito te\u00f3rica. Na verdade, eu mudo para n\u00e3o ficar no mesmo lugar. Ningu\u00e9m me cobra nada. Muitas vezes n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio mudar, mas eu busco sempre fazer algo que renove o meu trabalho.<\/p>\n<p>Muito desta pesquisa de estilos e de diferentes solu\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas que fiz ao longo dos livros que ilustrei \u00e9 previamente realizada nos meus cadernos de desenho. As solu\u00e7\u00f5es para mim surgem dos desenhos que s\u00e3o feitos freq\u00fcentemente sem fun\u00e7\u00e3o nenhuma. Por que isso? Porque eu n\u00e3o sei o que vou desenhar amanh\u00e3. Considero essa d\u00favida essencial. Vejo a ilustra\u00e7\u00e3o como uma pergunta, n\u00e3o uma resposta ou constata\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o saberia desenhar o livro &#8220;Os Tr\u00eas Contos da Sabedoria Popular&#8221;, do Rog\u00e9rio Andrade Barbosa, da mesma maneira que ilustrei &#8220;Pena de Ganso&#8221;, da Nilma Lacerda ou o &#8220;Cartas Lunares&#8221;, com meu texto. Estes tr\u00eas livros foram desenhados praticamente um ap\u00f3s o outro. Comparo muito o trabalho de um ilustrador ao trabalho de um ator como Dustin Hoffmann, ou Peter Sellers, por exemplo. Ali\u00e1s, eu acho a sintaxe teatral muito pr\u00f3xima da ilustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Fale um pouco agora dos seus cadernos de esbo\u00e7os, que s\u00e3o muitos. \u00c9 poss\u00edvel afirmar que eles s\u00e3o os lugares ideais para reinventar as pr\u00f3prias id\u00e9ias?<\/strong><\/p>\n<p>Meus moleskines s\u00e3o relic\u00e1rios&#8230; Posso at\u00e9 dizer assim: todos os desenhos dos meus cadernos possuem asas, e s\u00f3 est\u00e3o esperando a hora certa para voar. Aqueles desenhos que ficam, ali guardados, ainda n\u00e3o falam com voc\u00ea, mas algo est\u00e1 impl\u00edcito, como se me dissessem: &#8220;olha, voc\u00ea me deixa aqui e daqui a dez anos n\u00f3s vamos nos encontrar&#8221;. Ent\u00e3o, assim como as pessoas possuem di\u00e1rios, eu possuo meus cadernos, onde narro em forma de desenho o meu cotidiano. Registro ali somente o momento, porque os cadernos de desenhos n\u00e3o t\u00eam nenhuma coer\u00eancia \u2013 hoje eu posso desenhar uma coisa e amanh\u00e3 outra, depois outra, outra&#8230; Mas \u00e9 justamente essa incoer\u00eancia, essa aus\u00eancia de seq\u00fcencialidade, ou melhor, \u00e9 essa aparente aus\u00eancia de seq\u00fcencialidade que me anima a fazer sempre estes rabiscos. A hist\u00f3ria da sua ilustra\u00e7\u00e3o, na verdade, est\u00e1 narrada nos cadernos de desenhos e n\u00e3o nos livros que voc\u00ea ilustra. O livro que ilustro \u00e9 uma conseq\u00fc\u00eancia direta do que h\u00e1 nos meus moleskines. Se voc\u00eas me perguntarem onde est\u00e1 a fonte do meu trabalho, sua g\u00eanese criativa, eu diria que ela est\u00e1 nos meus cadernos de desenhos. Acho que, para sermos objetivos, temos que antes exercitar a nossa subjetividade. Pra mim, a fun\u00e7\u00e3o surge de algo aparentemente n\u00e3o objetivo. Por este motivo, chamo estes meus cadernos de &#8220;desenhar por desenhar&#8221;. O prazer de desenhar \u00e9 sempre generoso quando logo ap\u00f3s precisamos de objetividade para desenhar e encontrar solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Durante o processo de produ\u00e7\u00e3o do seu trabalho, como \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com os outros profissionais envolvidos, editores, designers, escritores, etc? Voc\u00ea t\u00eam total liberdade?<\/strong><\/p>\n<p>Bom, eu tenho liberdade para trabalhar, sim. Eu raramente mostro o layout, raramente tenho contato com o escritor, essa \u00e9 que \u00e9 a verdade. Gosto muito de conversar com escritores que ilustro. N\u00e3o vejo tamb\u00e9m nenhum problema quando um editor tem a curiosidade de saber o que vou fazer. At\u00e9 pelo fato de eu mesmo n\u00e3o saber o que vou fazer. Usando um termo de teatro, geralmente me d\u00e1 um &#8220;branco&#8221; antes de come\u00e7ar qualquer livro.<\/p>\n<p>Voltando ao escritor, o fato de ele pensar em met\u00e1foras liter\u00e1rias, isto n\u00e3o \u00e9 uma barreira para um bom di\u00e1logo. L\u00f3gico que a atua\u00e7\u00e3o de um escritor e mesmo do editor tem um limite.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 numa mesa esp\u00edrita psicografando visualmente um texto. Intepreto o texto como os m\u00fasicos compositores indicam seus movimentos. O que \u00e9 um &#8220;ad\u00e1gio lamentoso&#8221;? Um &#8220;lento ma no troppo&#8221;? Como vou interpretar isso? O lamentoso pra mim pode ser muito mais ralentado do que o escritor imaginou. O piano de Glen Gould intepretando Bach \u00e9 totalmente diferente de Cl\u00e1udio Arrau tocando tamb\u00e9m ao piano a mesma pe\u00e7a. Com a sua abstra\u00e7\u00e3o, a m\u00fasica nos ensina muito, principalmente quando consideramos o seu oposto, ou seja, a figura\u00e7\u00e3o e a concre\u00e7\u00e3o que s\u00e3o pr\u00f3prias da arte de ilustrar.<\/p>\n<p>J\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o aos designers venho trabalhando ultimamente muito com eles. Um designer de livro talentoso possui um sentido arquitet\u00f4nico e de espa\u00e7o que muitas vezes o ilustrador n\u00e3o tem. Quando era poss\u00edvel, sempre fiz o projeto gr\u00e1fico dos livros que ilustrei. Hoje em dia, estou querendo mudar isso.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 uma sucess\u00e3o de espa\u00e7os, certo? Espa\u00e7os em branco, espa\u00e7os preenchidos&#8230; Essa rela\u00e7\u00e3o do cheio e do vazio \u00e9 o designer quem pode equilibrar, porque se deixarmos ao crit\u00e9rio e ao gosto do ilustrador, na maioria das vezes, ele s\u00f3 vai optar pelo pleno espa\u00e7o, que s\u00e3o as ilustra\u00e7\u00f5es dele. As ilustra\u00e7\u00f5es devem sempre estar sujeitas ao conjunto total do livro, e o designer pode harmoniz\u00e1-lo muito bem. Ele \u00e9 um contraponto. Um designer que tenhamos afinidade pode ser perfeitamente o nosso alter-ego. Por essa raz\u00e3o, eu tenho chamado designers para colaborarem em meus trabalhos. Mas acho que o ilustrador deve ser o diretor de arte de seu livro, n\u00e3o o designer.<\/p>\n<p><strong>E a parte digamos mais t\u00e9cnica, de concep\u00e7\u00e3o do livro como objeto?<\/strong><\/p>\n<p>A primeira necessidade que tenho \u00e9 de ver o livro como um conjunto, quer dizer, n\u00e3o v\u00ea-lo p\u00e1gina por p\u00e1gina, e sim enxerg\u00e1-lo no todo. Eu desenho a capa aberta, incluindo as orelhas, a lombada e a quarta capa, e penso no livro como um teatro. H\u00e1 o palco, o prosc\u00eanio, a cortina, a porta do teatro, que seria a capa do livro. O frontisp\u00edcio e o falso rosto seriam as cortinas, onde vai come\u00e7ar a pe\u00e7a. O livro \u00e9 assim, uma esp\u00e9cie de caminhada que voc\u00ea vai fazendo ao longo da capa. A capa n\u00e3o \u00e9 o livro, \u00e9 uma introdu\u00e7\u00e3o, uma alegoria ao universo do livro. A capa funciona \u00e0 maneira de uma abertura de \u00f3pera, contendo todos os elementos do livro, mas n\u00e3o sendo o livro. Depois vem o falso-rosto, o frontisp\u00edcio, ficha catalogr\u00e1fica, pref\u00e1cio. Todos esses elementos pr\u00e9-textuais s\u00e3o seq\u00fcenciais e por isso precisam ser planejados em uma folha \u00fanica, porque s\u00f3 assim eu consigo dominar o conjunto do meu trabalho. Logo ap\u00f3s isso, eu fa\u00e7o a boneca do livro em formato um por um, onde eu adiciono os textos. Geralmente eu monto os textos impressos na boneca. Eu prefiro fazer isso \u00e0 m\u00e3o, gosto de trabalhar sensorialmente, no tato mesmo. Enfim, sempre penso no livro como uma cria\u00e7\u00e3o primeiramente t\u00e1ctil.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 um ilustrador h\u00e1 muitos anos. Durante esse per\u00edodo as mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas tiveram um profundo impacto sobre as artes gr\u00e1ficas. Pode nos falar sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que o material atua no conte\u00fado. Por exemplo, n\u00e3o existiria Aleijadinho sem a pedra sab\u00e3o. N\u00e3o existiria um Lautrec como cartazista sem o descobrimento da litogravura. A pr\u00f3pria estatu\u00e1ria grega n\u00e3o seria o que conhecemos caso a Gr\u00e9cia n\u00e3o fosse um pa\u00eds de solo t\u00e3o pedregoso. A arquitetura de Chicago sem o ferro n\u00e3o seria a mesma. Michelangelo n\u00e3o esculpia sempre da mesma maneira \u2013 suas est\u00e1tuas dependiam do tipo de m\u00e1rmore em que ele trabalhava. Assim, conclu\u00edmos que o material atua na cria\u00e7\u00e3o. A ilustra\u00e7\u00e3o n\u00e3o foge a isso. Os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, os processos de impress\u00e3o, os novos materiais e ferramentas, adicionaram uma nova linguagem e est\u00e9tica ao nosso trabalho. Hoje, podemos enviar e at\u00e9 mesmo fazer todo o nosso trabalho no computador. Eu n\u00e3o fa\u00e7o, mas sei que \u00e9 poss\u00edvel fazer tudo isso sem ter nenhum contato f\u00edsico com ele. Enfim, todos esses recursos da tecnologia atuam no estilo e na linguagem da ilustra\u00e7\u00e3o. A facilidade do computador, especialmente em se tratando de montagens, trouxe um danoso &#8220;bom gostismo&#8221; no uso de tipologia por exemplo.<\/p>\n<p>Quando eu era bem mo\u00e7o, estudei na Escola de Artes Gr\u00e1ficas do Senai, aqui na Tijuca. L\u00e1 eu pratiquei e aprendi composi\u00e7\u00e3o manual e mais tarde trabalhei na montagem de fotoletras. Acho que os erros absurdos no espacejamento entre letras e entre linhas que voc\u00ea v\u00ea a toda hora em capas de livros, an\u00fancios e folhetos se devem ao fato de que a forma\u00e7\u00e3o do designer atualmente, em termos de tipologia, j\u00e1 come\u00e7a no computador. Esta gera\u00e7\u00e3o de designer, na verdade meros micreiros, est\u00e1 fazendo um mal irrepar\u00e1vel \u00e0 arte da letra e ao design de modo geral.<\/p>\n<p>Quanto a mim, eu quero remar conta a mar\u00e9! Prefiro criar e desenhar \u00e0 m\u00e3o todas as letras dos livros que ilustro. Isso \u00e9 uma coisa que n\u00e3o abro m\u00e3o pra computador nenhum!<\/p>\n<p><strong>Quando come\u00e7amos um trabalho sempre existe um leque de possibilidades em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s t\u00e9cnicas e uso de refer\u00eancias. Como voc\u00ea lida com isso?<\/strong><\/p>\n<p>Muitas vezes eu fa\u00e7o um livro para experimentar uma t\u00e9cnica. Freq\u00fcentemente a t\u00e9cnica que escolho \u00e9 sempre compat\u00edvel com a literatura que estou trabalhando. Ela precisa estar pr\u00f3xima \u00e0 atmosfera liter\u00e1ria do escritor. Mas, por outro lado, certas vezes eu tenho necessidade de pesquisar, de averiguar certos recursos materiais. Neste caso, eu tento adaptar a literatura ao que quero fazer. Sinceramente \u00e9 isso.<\/p>\n<p><strong>Rui, eu acredito que em cada trabalho que fazemos, aprendemos duas vezes. Primeiro, por conta da pesquisa de refer\u00eancias. Segundo, no pr\u00f3prio desenvolvimento dos desenhos, quando aprendemos a lidar com aquele tema, naquelas determinadas circunst\u00e2ncias, de um jeito novo. O que voc\u00ea acha?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 verdade. Quando trabalho com pesquisa, fico diante de livros t\u00e3o d\u00edspares&#8230; Recentemente ilustrei &#8220;Fausto&#8221; com texto de Marlowe. Amanh\u00e3, ilustrarei um livro de conto de fadas e assim por diante. A pesquisa para o trabalho faz com que voc\u00ea construa um acervo dentro de si e assim, quando surgir a necessidade de us\u00e1-lo, voc\u00ea saber\u00e1 exatamente onde estar\u00e3o as informa\u00e7\u00f5es de que necessita. No ato da pesquisa sobre alguma coisa, eu acabo encontrando outras e isso ajuda a criar uma mem\u00f3ria criativa, poss\u00edvel de ser acionada facilmente quando necess\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>No seu entender, por que o ilustrador deve conhecer Literatura?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que o conhecimento da t\u00e9cnica liter\u00e1ria muito interessante para o ilustrador. Conhecer os diversos estilos e saber porque surgiram, enfim, a hist\u00f3ria da literatura \u00e9 importante n\u00e3o s\u00f3 por situar o ilustrador diante do texto, mas tamb\u00e9m porque o guiar\u00e1 na procura das refer\u00eancias correlatas \u00e0quele texto. \u00c9 interessante que ele saiba bem o estilo liter\u00e1rio sobre o qual est\u00e1 trabalhando, para que ele possa se posicionar como ilustrador. E numa outra abordagem, considero tamb\u00e9m fundamental que o ilustrador possua uma bagagem, tanto de leitura quanto de escrita, n\u00e3o somente para saber ler e interpretar os textos que vai ilustrar, mas principalmente para ter subs\u00eddios para escrever e ilustrar suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias. Essa sim \u00e9 uma grande conquista, talvez a maior que um ilustrador pode realizar.<\/p>\n<p><strong>Teria algumas palavras finais para quem escolheu a carreira de ilustrador?<\/strong><\/p>\n<p>Primeiramente agrade\u00e7o todo este apre\u00e7o, esta gentil refer\u00eancia que voc\u00ea e o Gabriel t\u00eam pelo meu trabalho, bem como esta oportunidade de falar sobre ilustra\u00e7\u00e3o e arte de modo geral. Fico tamb\u00e9m muito feliz e agradecido por este belo livro, este belo projeto que voc\u00eas fizeram sobre os principais livros que ilustrei.<\/p>\n<p>Como palavra final aos jovens ilustradores, eu diria que o fato de criarmos com nossas imagens a mem\u00f3ria feliz das pessoas, s\u00f3 isso dignificaria a nossa profiss\u00e3o. Sou muito otimista quanto ao futuro da imagem narrativa. N\u00e3o existem mais nas grandes cidades os contadores de hist\u00f3rias ao redor das fogueira. N\u00f3s, ilustradores, somos os novos &#8220;gri\u00f4s&#8221;, a narra\u00e7\u00e3o visual \u00e9 um elemento civilizat\u00f3rio. Todas as grandes civiliza\u00e7\u00f5es surgiram de grandes narra\u00e7\u00f5es. A B\u00edblia, o Gilgamesh, o Mahabharata, Il\u00edada e Odiss\u00e9ia, at\u00e9 mesmo livros fundamentais para a cultura ocidental como Decameron, Contos de Cantu\u00e1ria, Os Luz\u00edadas, A Divina Com\u00e9dia, todos estas hist\u00f3rias sedimentaram povos e na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Portanto, sem exagero, eu vejo a imagem narrativa como um elo, uma trilha entre o abstrato e o concreto. As nossas ilustra\u00e7\u00f5es s\u00e3o esfinges que cada leitor decifra \u00e0 sua maneira. Portanto, vale a pena trabalhar direito e ser honesto.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Luciano Ramos e Gabriel Gianordoli. Edi\u00e7\u00e3o: Renato Alarc\u00e3o Rui, conta pra gente como voc\u00ea come\u00e7ou a desenhar. Foi porque precisava, assim como uma pessoa come porque tem fome? Eu diria que foi uma necessidade. Uma necessidade que sempre tive de me expressar pelo desenho. 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